quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Eu agora sou Espanhol

Como é sabido não havia necessidade nenhuma do D. Afonso Henriques se ter zangado com a mãe. Essas coisas resolvem-se com o diálogo. A verdade é que por causa de uma desavença familiar, nasceu esse país ridículo e insustentável chamado Portugal. Eu sou mais uma vitima dessa desavença familiar com já quase 900 anos, porque sou português. E eu já não aguento mais. Por favor tirem-me daqui. EU NÃO QUERO SER PORTUGUÊS. Isto de ser português é um fardo, ou como cantava a Amália é "o meu triste fado". A última, então não é que o ministério dos negócios estrangeiros decidiu condenar as caricaturas de maomé que apareceram na imprensa. Caros leitores, ouviram bem, decidiu mesmo condenar. Nem o governo Dinamarquês, que está sob o fogo dos fundamentalistas islâmicos, se atreveu a tanto. Diz o nosso ministro, desculpem, meu não o vosso, Prof. Freitas do Amaral, que "a liberdade sem limites não é liberdade, mas licenciosidade". Isto da "licensiosidade" merece uma ida ao dicionário da Priberam, pois é "libertinagem, devassidão" (Eu realmente toda a vida fui um devasso). Diz ainda o homem: "Todos os que professam essas religiões têm direito a que tais símbolos e figuras sejam respeitados. O que se passou recentemente nesta matéria em alguns países europeus é lamentável porque incita a uma inaceitável ‘guerra de religiões’"

Exactamente, professor. E esses que professam essas religiões também têm o direito de destruir embaixadas, condenar escritores à morte (como Salman Rushdie), ameaçar de morte jornalistas, e instigar a violência e o ódio por causa da religião.

Já chega de tanta vergonha. Eu agora sou Espanhol, ou melhor: "ahora soy español. Y viva la España."

10 Comments:

At 2/08/2006 1:47 da tarde, Anonymous  said...

Mas porque é que aquela gente valoriza tanto a morte, a violência e tem tão pouco respeito pelo ser humano? Como é possível um cartoon justificar comportamentos tão violentos e uma raiva tão grande, capaz de levar a matar outro ser humano?

Eu penso que a resposta tem a ver com a realidade infeliz em que vivem. Estar vivo é um privilégio, mas apenas para aqueles que não têm fome e que não vivem sob um regime opressivo. Além de muitos viverem em estados que são tudo menos democráticos, praticam ainda uma religião que os torna escravos de um Deus, na expectativa de recompensas ou castigos depois da morte. Em situações assim, o ódio parece normal e a morte mais aliciante. É pena. Vamos desejar que nada de muito mau venha a acontecer. Zé

 
At 2/08/2006 7:11 da tarde, Blogger Nuno said...

Eu creio que isso explica parte do problema, mas creio que não explica tudo. É importante referir que os terroristas do atentado de Londres não eram propriamente "pobres", nem viviam num estado opressivo, embora se pudessem sentir oprimidos ou desintegrados da sociedade por motivos religiosos ou raciais.

Existem aqui muitas coisas. É de certa forma uma gerra de civilizações; é que muitos muçulmanos, os mais fanáticos, simplesmente não aceitam o estilo de vido ocidental, nem o predominio do mundo ocidental na aldeia global em que vivemos. Também me parece que as caricaturas são para muitos um pretexto para impor o seu ponto de vista radical e para expressar o seu ódio ao ocidente. E há, obviamente, alguma cegueira ideológica e fundamentalismo religioso. Mas é bom não esquecer que na europa, e em Portugal, se mataram e perseguiram pessoas por motivos religiosos durante a inquisição.

 
At 2/08/2006 7:17 da tarde, Blogger Nuno said...

Oi Zé,

esqueci-me de te dizer: Obrigado pelo teu comentário, e comenta mais vezes. Abraço.

 
At 2/09/2006 8:20 da tarde, Anonymous pedro said...

Pois eu creio que aquilo que o Ze' disse explica, senao tudo, pelo menos o fundamental: essa estoria da guerra de civilizacoes e' a mistificacao mais perigosa do nosso tempo!

Nao existe choque de civilizacoes nenhum: fanaticos como os barbudos que queimam embaixadas no Libano temos nos 'as duzias em muitas paroquias de Portugal, da Italia e da Polonia. Acontece e' que a nossa constituicao assenta no principio da separacao entre o Estado e a Igreja, donde mesmo os fanaticos sao obrigados a observar a lei. Isso nao acontece no Medio Oriente por razoes culturais, nao o nego, mas em larga medida porque os Estados sao simplesmente fracos e necessitam da religiao para se fazer respeitar.

 
At 2/09/2006 9:41 da tarde, Blogger Nuno said...

Olá Pedro,

Eu por acaso até vivi dois anos da minha vida vivi num país cuja população é maioritariamente muçulmana, a Turquia. E na Turquia: (a) o estado não é fraco; (b) o estado não precisa da religião para se fazer respeitar, bem pelo contrário rejeita qualquer ligação com a religião; (c) a Turquia é uma república com uma constituição laica, portanto existe uma total separação entre o estado e o islão. Apesar de o governo turco actual ser oriundo de um partido que se define como de inspiração islâmica (inspirado nos partidos democratas cristãos da Europa), eles não se atrevem quebrar a separação que existe entre estado e religião (e já houve algumas discussões), por diversas razões: por pressão da sociedade turca, do exército turco (o verdadeiro guardião da constituição laica) e da UE.

E, no entanto, a Turquia tem problemas terríveis com o fundamentalismo religioso. Quando dizes que "barbudos como os que queimam as embaixadas do Libano temos nós às duzias em muitas paróquias de Portugal", eu acho que não sabes muito bem o que estás a dizer. Apesar de toda a infra-estrutura de segurança que existe na Turquia, este país é extremamente vulnerável ao terrorismo islâmico; a Al-Qaeda consegue recrutar com alguma facilidade entre os cidadãos turcos. Os últimos atentados, como o do consulado britânico em Istambul, e da sede do HSBC na mesma cidade, são prova disso.

É óbvio, como o Zé disse, que a pobreza explica muita coisa. Mas, como eu disse, não explica tudo. Até porque a Turquia não é propriamente um país pobre. Em termos médios, os turcos gozam de um melhor nível de vida que os brasileiro, por exemplo. E, no entanto, apesar de haver no Brasil extrema pobreza, e vá algum fundamentalismo religioso, ele não assume as proporções de violência que assume na Turquia. Porque será?

Concordo que o termo "guerra de civilizações" possa ser exagerado. Mas, convenhamos, ó Pedro, não é propriamente a "mistificação mais perigosa do nosso tempo". Acho que estaremos de acordo que existe, pelo menos, um "choque". Porventura até o termo "choque de civilizações" é exagerado, mas, existe, pelo menos, um choque entre visões de uma sociedade. Entre aqueles que defendem uma sociedade mais livre, e aqueles que defendem, de uma forma cega, uma sociedade segundo os cânones do islão.

O Islão que como religião não tem nada de mal. O problema são aqueles que neste momento falam em nome desta religião e que têm uma visão demasiado radical do seu livro sagrado o Corão.

 
At 2/11/2006 1:18 da manhã, Blogger Eva Shanti said...

Merabha Nuno,

Concordo inteiramente contigo: «Islão que como religião não tem nada de mal».

O problema está na interpretação dita fudamentalista que é terrorista e louca.

Quanto à Turquia, estive lá um total de 2 meses. Estive num programa de intercâmbio de curto prazo e vivi em casa de famílias turcas.

Gosto imenso daquele país. Gostava de lá voltar e de fazer alguma coisa pela defesa dos direitos humanos e das mulheres em específico.

Não acho que seja um povo com mau fundo. São acolhedores, são simples, são simpáticos por natureza. Têm S com cedilha, i's sem pinta, Ç no início das palavras e outras coisas que não lembram, mas sempre me senti lá bem ao contrário do que já senti noutros países tidos como civilizados. É um país de grandes assimetrias mas que quer muito pertencer à UE - uma conversa que dava pano para mangas!

Não tenho tido muito tempo para visitar a vossa «casa», mas prometo voltar, porque gosto de ler tudo ao pormenor. Os vossos textos são interessantes, actuais e pertinentes.

Gule gule ve Teshekur Ederim!

 
At 2/11/2006 10:08 da manhã, Blogger Nuno said...

Merhaba Eva,

Muito obrigado pelo simpático comentário. Concordo contigo, a Turquia é um pais fantástico. Já vi que sabes um pouquinho de turco; é uma lingua muito complicada de aprender porque não tem uma raiz latina. Eu tive lá dois anos e o melhor que consegui foi discutir futebol com taxistas turcos; a um nível muito superficial claro :)

Tesekkur ederim ve iyi kendini bak.

 
At 2/11/2006 2:22 da tarde, Blogger Eva Shanti said...

Nuno,

Turkçeyi yeni ogreniyorum...

São conhecimentos rudimentares e, tal como faço no Alemão, falo a maior parte das vezes «à índio», ou seja, sujeito + infinito do verbo!

Na altura era capaz de manter uma conversação básica e inicial (olá, como está, como te chamas, o que fazes, etc.) e só até certo ponto, porque é realmente difícil e tudo o que aprendi foi à minha custa.

Quanto a futebol, basta dizer Portugal que eles saltam logo com o Porto, o Sporting e o Benfica.
Não acompanho o futebol turco, mas tudo o que sei é Yesil, siyah champion Korfez! E sei que há um tal de Galatasaray e o Fenerbahçe.

Tenho ums K7´s do Tarkan (pois então) e de mais alguma coisa que na altura me foi recomendada... Tenho que ver onde param essas preciosidades...

Bjs

 
At 2/12/2006 4:10 da tarde, Anonymous Pedro said...

Caro Nuno,

Escrevo para dizer que mantenho a ideia de que o choque de civilizações é uma mistificação que apenas desvia a atenção das vedadeiras causas do fundamentalismo e do terrorismo.

Nunca vivi na Turquia; contudo, em política internacional, a democracia turca é vista como frágil e dependente do poder dos militares. Fraqueza do Estado laico, aliada a grande pobreza e ignorância generalizada, abrem o caminho ao fundamentalismo religioso, seja ele islâmico ou católico. É isto que eu penso.

Bradford é no Reino Unido sinónimo de exclusão social e racismo;no pós 25 de Abril, no norte rural de Portugal a população acicatada pela igreja incendiou e destruiu sedes de partidos de esquerda muito ao estilo do que se passou agora em Damasco. Constituiram-se o ELP e o MDL. A ignorância, a pobreza e a falta de Estado estiveram lá, permitindo que o fundamentalismo fizessse em Braga o que não podia fazer em Lisboa. Até as barbas eram moda na época, e por aí em diante...

Abraço,

Pedro

 
At 2/12/2006 6:42 da tarde, Blogger Nuno said...

Olá Pedro,

Desde já, obrigado pelos teus comentários.

Concordo que não se deve colocar as coisas em termos de uma "gerra de civilizações". É perigoso porque desta forma colocamos no mesmo saco milhões de muçulmanos, que embora religiosos, não se identificam com os fundamentalistas. Mas, quando utilizei este expressão tive o cuidado de dizer "os mais fundamentalistas", mas de qq forma, concordo, é infeliz.

Rejeito completamente essa visão da Turquia como sendo um estado fraco. Na minha opinião isso não é verdade e basta estar lá um pouco para o perceber. Essa visão demonstra a forma paternalista como o ocidente olha para o mundo islâmico. Rejeito também essa ideia de que o estado turco é uma democracia frágil; olha, isso sim, uma verdadeira mistificação. A prova de que é uma democracia de facto, é o governo actual, que é de inspiração islâmica, que nem elite laica turca nem o exército queriam, mas que, apesar de tudo, governa.

Para compreender um pouco um mundo islâmico, é preciso compreender que as coisas por lá são um pouco mais radicais e violentas do que no mundo ocidental. Pode parecer estranho que o exército seja o defensor da constituição laica, mas essa foi a forma que as elites turcas encontraram para defender o estado contra o radicalismo generalizado. A república de Ataturk não é consensual; há muitos que não a aceitam porque querem uma república islâmica. Agora como é que se combate isto? Como é que combates uma força que está disposta a tudo? Aliás, a sobrevivência da república laica e da democracia na Turquia é, na minha opinião, a prova de que o estado turco é tudo menos fraco.

Isto também tem a ver com esta ideia que as caricaturas de Maomé ofenderam todo o mundo islâmico. Custa-me a acreditar. Os mais radicais dão essa idea (e os governos aproveitam-se disso) mas não creio que isso seja consensual. O problema, como sempre, é que os mais moderados calam-se.

Eu acho que a tua opinião estará mais próxima da minha se eu disser que o problema é que a generalidade do povo muçulmano ainda não percebeu que estado e religião devem estar separados. Até porque no mundo islâmico há a ideia de que o islão não é apenas uma religião, é, também, uma forma de governo e de organização da sociedade. Mas isso não quer dizer os estados dos países muçulmanos não façam essa separação. Eu estou seguro que a Turquia não é único país a fazer esta separação. Outros a fazem; o problem é que nem todos a aceitam?
A turquia deve ser, aliás, o país aonde essa separação é mais bem aceite.

Concordo que a probreza leva ao fundamentalismo religioso, seja ele cristão ou islâmico. Mas, na minha opinião, o fundamentalismo cristão não assume as proporções de violência e radicalismo que assumem no mundo islâmico.

Bradford é em Inglaterra; o Reino Unido é um estado fraco? Pobre? E no entanto da região de Bradford vieram os terroristas que cometeram os atentados de Londres.

O exemplo português que tu dás foi na altura do PREC. Quando andava tudo doido :) e representa a reacção da direita ao radicalismo da extrema-esquerda. Acho que, hoje, seria muito mais difícil de formar essa força porque, entretanto, Portugal mudou. Isto em relação ao que disseste que "barbudos como aqueles temos nós às duzias".

 

Enviar um comentário

<< Home